sábado, 12 de julho de 2008

Tarde demais... - Florbela Espanca


Quando chegaste enfim, para te ver
Abriu-se a noite em mágico luar;
E para o som de teus passos conhecer
Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar...

Chegaste, enfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que não pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar
E as pedras do caminho florescer!

Beijando a areia de oiro dos desertos
Procurara-te em vão! Braços abertos,
Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!

E há cem anos que eu era nova e linda!...
E a minha boca morta grita ainda:
Porque chegaste tarde, ó meu Amor?!...

sexta-feira, 11 de julho de 2008

O Poema - Sophia de Mello Breyner Andresen


O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê
O poema alguém o dirá
Às searas
Sua passagem se confundirá
Como rumor do mar com o passar do vento
O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento
No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas
(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)
Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas
E entre quatro paredes densas

De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Tenho 13 anos, fui vendida - Patrícia McCormick [Opinião]


Título: Tenho 13 Anos - Fui Vendida
Autor:
Patricia McCormick
Edição/reimpressão: 2007
Páginas: 268
Editor: Editorial Presença
Colecção: Grandes Narrativas
P.V.P.: 15€

Sinopse:
Lakshmi vive numa aldeia do Nepal, perdida nos Himalaias. Apesar da extrema pobreza em que vive, é feliz cultivando a sua pequena horta, brincando com a irmã bebé e a sua cabra que a segue por todo o lado. Acima de tudo deseja um dia poder ajudar a sua mãe doente e oferecer-lhe um telhado de zinco, como têm todas as outras casas da aldeia. Depois de uma monção particularmente desastrosa, o padrasto vende-a a uma traficante, convencendo-a de que vai poder trabalhar como criada numa casa rica. Apesar de tudo aquilo por que passa num mundo atrozmente violento, Lakshmi consegue manter a sua integridade e compartilhar compassivamente a agonia das companheiras como as suas pequenas alegrias. No final a sua coragem acabará por determinar a sua sorte.

A minha opinião:
Um livro que se lê ‘como o diabo esfrega um olho’: entusiasmante desde a primeira página. E fez-me olhar de uma outra maneira para as futilidades da minha vida. Uma criança cujo sonho principal é ter um telhado de zinco, e que pouco conhece do mundo actual. Nunca tinha bebido uma coca-cola, não sabe o que é futebol… um livro para ler e pensar bem depois.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Lição - Miguel Torga


Oiço todos os dias,
De manhãzinha,
Um bonito poema
Cantado por um melro
Madrugador.
Um poema de amor
Singelo e desprendido,
Que me deixa no ouvido
Envergonhado
A lição virginal
Do natural,
Que é sempre o mesmo, e sempre variado.

terça-feira, 8 de julho de 2008

As velas da memória - Ruy Belo


Há nos silvos que as manhãs me trazem
chaminés que se desmoronam:
são a infância e a praia os sonhos de partida
Abrir esse portão junto ao vento que a vida
aquém ou além desta me abre?
Em que outro mundo ouvi o rouxinol
tão leve que o voo lhe aumentava as asas?
Onde adiava ele a morte contra os dias
essa primeira morte?Vinham núpcias sem conto na inconcebível voz
Que plenitude aquela: cantar
como quem não tivesse nenhum pensamento.
Quem me deixou de novo aqui sentado à sombra
deste mês de Junho? Como te chamas tu
que me enfunas as velas da memória ventilando: «aquela vez...»?
Quando aonde foi em que país?
Que vento faz quebrar nas costas destes dias
as ondas de uma antiga música que ouvida
obriga a recuar a noite prometida
em círculos quebrados para além das dunas
fazendo regressar rebanhos de alegrias
abrindo em plena tarde um espaço ao amor?
Que morte vem matar a lábil curva da dor?
Que dor me faz doer de não ter mais que morrer?
E ouve-se o silêncio descer pelas vertentes da tarde
chegar à boca da noite e responder

Onde vais, Isabel? - Maria Helena Ventura [Opinião]

Título: Onde Vais Isabel?  
Autor: Maria Helena Ventura
Edição/reimpressão: 2008
Páginas: 272
Editor: Saída de Emergência
P.V.P.: 17,75€

Sinopse:
Da mesma autora do best-seller Afonso, O Conquistador, chega-nos a vida deslumbrante de uma das mais admiradas figuras da História de Portugal: a rainha santa Isabel. Nascida em Espanha, descendente de santos, reis e imperadores, Isabel chega a Portugal para casar com D. Dinis, rei culto, homem formoso, trovador invejável.No seu séquito traz as damas de companhia e um terrível segredo com origem na Ordem do Templo e cujo destinatário é D. Dinis... Um segredo que poderá mudar a história da Europa!Mas nem só de glória se cobre a vida de Isabel. As aventuras extraconjugais do rei português humilham-na profundamente. Apesar de, até aí, a rainha se mostrar magnânima, criando com igual afecto tanto os seus filhos como os bastardos de D. Dinis. É entre intrigas, ciúmes, infidelidades, rivalidades, adultérios e arrependimentos, que a vida da rainha santa Isabel se transforma no drama de uma heroína da santidade feita de amor, lágrimas escondidas e silêncio magnânimo.

A minha opinião:
A bondade da rainha Santa Isabel é retratada por Maria Helena Ventura num livro bastante interessante. A autora relata os costumes daquela época, os feitos do rei D. Dinis em prol da cultura, implemantando em Portugal, além do conhecido pinhal de Leiria, a primeira universidade portuguesa. O rei ajudou ainda a criação da ordem de Cristo, que viria a ser um ‘porto de abrigo’ dos templários que aos poucos foram expulsos de toda a Europa, tendo-se refugiado em Portugal com um nome diferente. A bondade da rainha para com os pobres, e com a conivência encaputada do rei, fez com que durante décadas fosse sempre reconhecida pela esmola do pão e das rosas que, sem que quase ninguém soubesse, vinham acompanhadas de uma moeda que ajudava os mais necessitados naquela altura. Apesar de ter sofrido com as constantes infidelidades do seu marido, que não a amava, e de um filho problemático que viria a ser o rei D. Afonso IV, a rainha vivia para a ajuda aos mais pobres e para a construção do convento de Santa Clara a Nova

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Boa Noite, Senhor Soares - Mário Cláudio [Opinião]

Título: Boa Noite, Senhor Soares 
Autor: Mário Cláudio
Edição/reimpressão: 2008
Páginas: 96
Editor: Dom Quixote
Colecção: Autores de Língua Portuguesa
P.V.P.: 10€

Sinopse:
«A minha maior surpresa aconteceu porém numa tarde em que estávamos apenas os dois no escritório, e o senhor Soares saiu sem uma palavra, deixando-me sobre a secretária um barquinho de almaço pautado, e com este nome no casco, desenhado a lápis, António.»
A minha opinião:
Quando comprei o último livro de Mário Cláudio estava à espera de um aprofundamento maior sobre este heterónimo pessoano. É certo que nunca tinha lido qualquer livro deste autor, que por coincidência ou não foi o vencedor do Prémio Pessoa em 2004. No entanto, pensei que ia ser mais explorada a faceta de guardador de livros, Bernardo Soares. Que o autor se ia focar na personagem em si, e não apenas numa personagem criada por ele próprio e que teria sido colega de escritório do Soares. A história do livro relata mais a história do personagem de Mário Cláudio, e do seu infortúnio e da sua irmã, do que propriamente do Soares, Bernardo, que me interessaria mais. Relata apenas que seria uma pessoa sozinha, metida consigo mesma, sem grandes amizades, e que andava acompanha por um tal de reis, Ricardo reis, também heterónimo pessoano e pouco mais amizades. Ora isso já nós adivinhávamos pela obra de Pessoa, Livro do Desassossego. Esperava mais deste livro que apesar de pequeno, poderia ter desenvolvido um pouco mais esse tema.

domingo, 6 de julho de 2008

O que desejei às vezes - António Botto


O que desejei às vezes
Diante do teu olhar,
Diante da tua boca!

Quase que choro de pena
Medindo aquela ansiedade
Pela de hoje - que é tão pouca!

Tão pouca que nem existe!

De tudo quanto nós fomos,
Apenas sei que sou triste.