segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O Homem de Constantinopla - José Rodrigues dos Santos [Opinião]

Título: O Homem de Constantinopla
Autor: José Rodrigues dos Santos
Coleção: «Fora de Colecção» n.º 379
N.º de Páginas: 592
PVP: €22,00

Sinopse:
O Império Otomano desmorona-se e a minoria arménia é perseguida. Apanhada na voragem dos acontecimentos, a família Sarkisian refugia-se em Constantinopla. Apesar da tragédia que o rodeia, o pequeno Kaloust deixa-se encantar pela grande capital imperial e é ao atravessar o Bósforo que pela primeira vez formula a pergunta que havia de o perseguir a vida inteira:
“O que é a beleza?”
Cruzou-se com a mesma interrogação no rosto níveo da tímida Nunuphar, nos traços coloridos e vigorosos das telas de Rembrandt e na arquitectura complexa do traiçoeiro mundo dos negócios, arrastando-o para uma busca que fez dele o maior coleccionador de arte do seu tempo.
Mas Kaloust foi mais longe do que isso.

Tornou-se o homem mais rico do planeta.

Inspirado em factos reais, O Homem de Constantinopla reproduz a extraordinária vida do misterioso arménio que mudou o mundo – e consagra definitivamente José Rodrigues dos Santos como autor maior das letras portuguesas e um dos grandes escritores contemporâneos. 

A minha opinião: 
Confesso: Não consigo resistir aos livros de José Rodrigues dos Santos (JRS). Quando sai um apresso-me logo a ler. E este foi fabuloso. Li-o de uma assentada e ao fim de dois dias já estava a desfolhar a última página.

Neste seu novo livro JRS retrata a vida de Calouste Gulbenkian. Dividido em dois volumes, (o segundo será publicado a 23 de Novembro com o título: Um Milionário em Lisboa), este romance começa com a chegada de Krikor a Lisboa quando o seu pai já se encontra moribundo. Krikor encontra por entre os papéis do pai dois volumes que dariam os títulos dois dois livros de JRS.


O primeiro volume começa com a história do jovem Kaloust, nos primeiros anos de vida. Mostrando-se com um rapaz curioso, Kaloust já pronunciava que iria ser um excelente homem de negócios, tal qual o seu pai fora. Um pai que queria que Kaloust fosse o rapaz mais esperto de Trebidonza.


Além de ir retratando a vida, quase como uma biografia, embora romanceada daquele que foi um homem de sucesso, JRS retrata também o conflito que existiu naquela época entre os arménios e os turcos e o ódio que detinham sobre os cristãos. Kaloust acabou por ter de fugir da sua terra mãe, por temer a sua própria vida e dos seus familiares. Estabelece-se em Londres, local onde já tinha vivido para completar os seus estudos de engenharia, e aí permanece durante muito tempo.

A vida de Kaloust, O Senhor Cinco Por Cento, tal qual JRS retratou, pode, porém, ser alvo de polémica. JRS retrata o mecenas como um homem que não olha a meios para atingir os seus objectivos, sobretudo económicos, optando por viver num quarto de hotel (Ritz) para fugir aos impostos, mas também com um mulherengo que gostava de raparigas jovens (menos de 18) por pensar que estas representavam um "elixir" da juventude.

No entanto, não posso deixar de enaltecer a visão que Kaloust tinha para os negócios, investiu no petróleo, um negócio que ainda estava no início, ganhando uma importância cada vez maior com o advento dos automóveis a gasolina sobre o transporte a vapor, a electricidade...


Estava à espera de ver um Kaloust mais virado para a cultura, mas JRS só nos deu um toque desse seu lado. Quando questiona "O que é a beleza?" quando ainda é criança, Kaloust começa a ver o mundo de uma forma diferente e muito à sua maneira. Apreciador de obras de arte desde muito jovem, só quando entraria nos 30 anos é que teria dinheiro para comprar o seu primeiro quadro, que já andava a namorar numa galeria londrina. Mas do aspecto cultural só se viu essa parte. Tenho esperanças que o próximo volume desenvolva muito mais essa vertente, além da importância que teve no nosso país.

Ao lado de Kaloust encontra-se sempre a sua secretária uma tal de Madame Duprés, muito importante para a satisfação dos seus desejos mais prementes.

JRS frisa em várias entrevistas que este é um romance, uma história baseada em Calouste Gulbenkien, embora não tenha o rigor de uma biografia, (daí ter alterado o nome real dos personagens por um nome ficcionado) até porque não falou com ninguém da família do filantropo. No entanto, é curioso saber um pouco mais do que seria a vida de Kaloust até se tornar no homem é que foi.

Excerto:
"Beija sempre a mão que não te atreves a morder."





1 comentário:

São disse...

Eu sou um bocado suspeita porque sou completamente fã do José Rodrigues dos Santos, tanto enquanto escritor, como enquanto jornalista. Tenho uma forte identificação com ele (com as ideias dele, quero dizer) há muitos anos. Por isso, também não podia deixar de gostar deste. Mas realmente uma coisa que também me desiludiu um bocado foi o facto da cultura ser um bocado deixada de lado. Faliu-se pouco de cultura e muito de negócios e petróleo. A pergunta que se dizia estar sempre presente ao longo do livro, "O que é a beleza", não esteve assim tão presente como eu esperava, e acaba por ser um bocado deixada de lado. Mas se o Calouste (ou Kaloust) foi assim...
Uma coisa que não me chocou nem entristeceu neste romance e que costuma chocar ou, pelo menos entristecer, foi o adultério. E porquê? Precisamente porque nunca houve amor entre o Kaloust e a Nunuphur :) ... Aquele casamento não passou de um bom negócio, tanto para um como para o outro, portanto... Tanto que quando ele praticamente sai de casa para ir viver no hotel, é-nos dito que ela não gosta muito, mas enfim... Até me ri e pensei "Olha, reagiu como uma mulher a quem o marido diz que vai numa viagem de trabalho e que só volta dali a dois dias... Não gosta muito porque estava a planear um passeio no dia seguinte, mas paciência..."
Em relação às "meninas" também não me chocou por aí além porque elas não eram propriamente crianças e sabiam o seu papel na vida dele.
No fundo, o que mais me entristeceu no meio disto tudo é o facto do Kaloust nunca ter amado verdadeiramente uma mulher na vida. Nunca se ter apaixonado. Aquela paixão, aquele sentimento, que vemos no final , no filho em relação à Marjan, nunca vimos no pai... Isto é curioso, sendo ele um homem virado para as artes (que afinal não foi tanto assim).
Adorei o livro e já penso no próximo. Desculpe o testamento :)