sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Mães e Filhas com História - Fátima Lopes [Opinião]

Título: Mães e Filhas com História
Autor:
Fátima Lopes
Colecção: História Divulgativa
P.V.P: 16 €
Páginas: 264 + 16 Extratextos


O amor entre uma mãe e uma filha pode ser vivido e sentido de diferentes formas. Pode ser um amor incondicional. Um amor abnegado. Um amor cúmplice, baseado na mais profunda amizade. Um amor temeroso ou respeitador. Castrador ou potenciador.
Foi na procura destas diferentes formas de amor que Fátima Lopes enveredou pela História, para descobrir estas Mães e Filhas.
Catarina de Bragança foi Rainha de Inglaterra, mas sempre viveu na sombra da sua poderosa e demasiado exigente mãe Luísa de Gusmão.
D. Maria II assistiu ao sofrimento da sua adorada mãe, maltratada pelo marido e jurou a si própria não seguir o seu exemplo.
Catarina de Áustria é Rainha de Portugal, mulher de poder, austera, que nunca esqueceu os terríveis anos de cativeiro vividos ao lado da sua mãe, Joana a Louca, no Mosteiro de Tordesilhas.
Filipa de Lencastre, mãe da Ínclita Geração, fez questão de educar os filhos na fé e em valores fortes. Isabel sua filha irá honrar a sua memória ao se tornar na distinta Duquesa de Borgonha.
Sissi, Imperatriz da Áustria e da Hungria viu os seus filhos serem afastados de si por uma sogra controladora. Apenas a última filha Maria Valéria viveu a seu lado e tornou-se na sua verdadeira obsessão.
Já Maria Antonieta confessava em surdina o medo que sentia da sua mãe a imperatriz Maria Teresa.
Estas são algumas das figuras históricas retratadas por Fátima Lopes que depois dos seus anteriores bestsellers, a autora e apresentadora de televisão, regressa à escrita de forma surpreendente. Uma visita à História, que nos permite ficar a conhecer cada uma destas mulheres, no seu papel menos conhecido e explorado, o de mães e filhas.

A minha opinião *:

Não posso deixar de falar este livro sem relatar algumas das histórias que fui lendo (ou relembrando), entre mães e filhas. Histórias de pessoas importantes na nossa História, mas que também tiveram uma importância fulcral na educação e no amor que deram aos seus descendentes.

Sem pretender escrever um livro de história, Fátima Lopes explorou apenas a relação entre mães e filhas de várias personalidades da História Mundial. Para primeira vez que leio a autora, e também apresentadora de televisão, até que fiquei agradada. De uma forma simples, mas enriquecida com aspectos da História, mas também diálogos ficcionados que a autora imaginou que se tivessem passado, Fátima Lopes consegue explicar bem o que terá sido o relacionamento entre membros da família.

O livro começa com a relação fria entre D. Leonor Teles e D. Beatriz. Pérfida como só D. Leonor poderia ser, a sua relação com a sua filha era apenas baseada no que o futuro lhe poderia trazer. Desde tenra idade D. Beatriz era usada pela mãe no intuito de lhe arranjar um excelente casamento que a colocaria, a ela, em boa posição em relação ao trono português. Casada com um homem débil e fraco na governação, D. Leonor era poderosa e usava de todos os meios para fazer tudo a seu proveito. Usada como mera troca na política ibérica, D. Beatriz acaba por casar com um homem que podia ser seu pai... mas as voltas são trocadas e D. Leonor cai em desgraça.

Ao contrário da família anterior, a relação de Filipa de Lencastre e Isabel de Borgonha não podia ser a melhor. Apaixonada pelo marido e pelos filhos, Filipa e Isabel davam-se muito bem. Talvez por isso é que, apesar de não ter sido tão feliz como a mãe tinha sido no casamento, foi uma grande mulher, mãe e consorte. Além disso, tinha uma posição de destaque ao lado do marido, no governo de Borgonha.

"D. Filipa viveu um casamento onde não se conhecem amantes ao monarca, nem filhos ilegítimos depois do casamento. D. Isabel teve de viver rodeada de filhos bastardos do seu marido que não se coibia de ter amantes e espalhou filhos ilegítimos."

Devido ao estado de demência de D. Joana, a Louca, D. Catarina de Áustria viveu os seus primeiros 18 anos em total clausura, só saindo do "cárcere" para casar com o rei de Portugal. Depois do seu marido morrer, estava ela grávida de Catarina, a filha torna-se na sua principal obsessão. Mas não era uma relação boa como era de prever: "Era uma relação baseada no medo, no sacrifício e menos no amor." Inteligente e com uma personalidade vincada e, apesar de ver morrer consecutivamente os filhos que gerava, foi ganhando uma confiança cada vez maior por D. João III.

D. Catarina de Médicis, apesar de uma infância terrível, tornar-se-ia uma verdadeira mulher de Estado, nunca olhando a meios para atingir os seus fins, nem que isso prejudicasse os seus filhos. Primogénita, Margarida, a Rainha Margot, espírito livre e com ideias completamente diferentes da mãe, desde cedo percebeu que teria que iria sofrer muito por contrariar a mãe, inclusive a prisão.

A relação entre D. Luísa de Gusmão e D. Catarina de Bragança era boa. Esposa de D. João IV, Luísa de Gusmão sempre se mostrou ser uma mulher forte, dando provas da regência do reino português quando o rei morreu e o seu filho mais velho e sucessor ainda era menor. Por outro lado, a sua filha não seria tão forte, mas teria pela frente grandes provações. Prometida ao rei de Inglaterra Carlos II, D. Catarina nunca se adaptaria bem à vida na corte inglesa, nem ao sucessivo número de amantes do seu marido. O facto de não ter conseguido deixar descendentes também fez com que fosse cada vez mais infeliz. Pouco tempo da morte do marido D. Catarina volta para Portugal onde deixou sempre o seu coração.

Apesar de terem sido das famílias mas ricas portuguesas, os Távoras tiveram um destino trágico. D. Leonor de Távora, uma mulher altiva e orgulhosa, nutria pelos dois filhos preferidos um grande amor: D. Mariana Raimunda e Luís Bernardo cuja mulher fora amante do rei D. José. Nem a fervorosa fé lhes valeu.

Mesmo amando a mãe, Maria Antonieta não conseguia conter o medo que tinha dela, mesmo que a distância as separasse. Maria Teresa, primeira e a única mulher a governar na Europa até então era uma mulher altiva e forte. Além disso não esconde as preferências pela irmã de Antonieta, Maria Cristina, três anos mais velha. Depois de casar com o futuro rei de França, Luís XVI e não conseguindo consumar o casamento e, consequentemente, não conseguir engravidar, a sua mãe mandava-lhe cartas cheias de críticas. Nunca foi feliz no amor. E ao fim de alguns anos de casada tudo servia como escape para a jovem. O aumento das dívidas era cada vez maior o que a tornou má amada pela população.

D. Leopoldina de Habsburgo nunca foi feliz. Era uma mulher triste, sofrida e desiludida com um casamento cujo marido, D. Pedro, a traía constantemente. A par disso sofria violência doméstica. Tal era um facto que acabaria por acabar com a sua triste vida numa das discussões que teve com o seu esposo. A sua e o filho que gerava o seu ventre. D. Maria II assistiu a tudo e jurou que o seu casamento seria bem melhor, seria feliz. Futura rainha de Portugal, D. Maria casou três vezes, mas apenas o seu último marido D. Fernando a desposou. Ao contrário da sua mãe mostrou ser uma mulher forte e destemida que levou a pulso firme os desígnios do reino português assim como dentro das portas de sua casa. Mãe de muitos filhos e feliz no casamento, acabaria por morrer ao dar à luz o seu 11.º filho. Mas morreu feliz.

Quarta filha da Imperatriz Sissi, D. Maria Valéria foi a única filha que pode ser educada pela mãe. Os seus irmãos, mal nasciam, eram tirados à mãe pela sogra, Sofia, por achar que ela não era uma boa mãe. Melancólica e tímida, Sissi foi educada livremente, não tendo uma educação de principesca aos olhos dos estereótipos da época. Daí a sua sogra achar que não daria uma boa mãe. Sissi nunca se interessou pela política e quando a filha nasceu criou uma obsessão por ela. De tal forma que se tornaram muito amigas e confidentes. Talvez por ter sido infeliz no casamento quis que fosse a própria filha escolher o seu marido. Ao contrário da sua mãe, Maria Valéria seria bem aceite na corte e teria um importante papel, sobretudo na Primeira Guerra Mundial.

A Czarina Alexandra apaixonou-se à primeira vista por Nicolau. Apesar da sua família tentar convencê-la a escolher um novo pretendente, Alexandra recusou todos os conselhos. Também o pai de Nicolau não via com boas olhos este enlace. Além de Alexandra ser luterana não era bem vista aos olhos da sociedade russa. Tímida e série, tinha uma cultura acima da média. Anastácia Romanov era a alma da casa, era diabrete enquanto criança e mesmo passando para uma personalidade mais tranquila quando cresceu não deixou de perder o sentido de humor. Morreria aos 17 anos sem ter conhecido o amor e a glória.

Desculpem o extenso texto mais empolguei-me demasiado com as relações entre mães e filhas e acabei por nem reparar que estava tão grande. Gostei da forma como Fátima Lopes expôs a história, cuja leitura fluiu tão bem que li este livro num ápice.

* contém dados detalhados do livro 

 


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