sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Perguntem a Sarah Gross - João Pinto Coelho [Opinião]

Título: Perguntem a Sarah Gross
Autor: João Pinto Coelho
Páginas: 448
Editor: Dom Quixote
PVP: 16,90€

Sinopse:
Em 1968, Kimberly Parker, uma jovem professora de Literatura, atravessa os Estados Unidos para ir ensinar no colégio mais elitista da Nova Inglaterra, dirigido por uma mulher carismática e misteriosa chamada Sarah Gross. Foge de um segredo terrível e procura em St. Oswald’s a paz possível com a companhia da exuberante Miranda, o encanto e a sensibilidade de Clement e sobretudo a cumplicidade de Sarah. Mas a verdade persegue Kimberly até ali e, no dia em que toma a decisão que a poderia salvar, uma tragédia abala inesperadamente a instituição centenária, abrindo as portas a um passado avassalador.
Nos corredores da universidade ou no apertado gueto de Cracóvia; à sombra dos choupos de Birkenau ou pelas ruas de Auschwitz quando ainda era uma cidade feliz, Kimberly mergulha numa história brutal de dor e sobrevivência para a qual ninguém a preparou.
Rigoroso, imaginativo e profundamente cinematográfico, com diálogos magistrais e personagens inesquecíveis, Perguntem a Sarah Gross é um romance trepidante que nos dá a conhecer a cidade que se tornou o mais famoso campo de extermínio da História. A obra foi finalista do prémio LeYa em 2014.

A minha opinião: 
Logo que li a sinopse de "Perguntem a Sarah Gross" que decidi que tinha que ler este livro. Não o consegui comprar logo, mas mais cedo ou mais tarde ele veio parar à minha estante e, logo que chegou, da estante saltou para as minhas mãos, pois então. 

Muito se tem falado deste "Perguntem a Sarah Gross". De facto, estava curiosa para saber se tantas opiniões favoráveis tinham fundamento. Daí ter partido com expectativas demasiado altas em relação ao livro, o que nem sempre é bom. A desilusão podia ser grande. Felizmente foi uma verdadeira surpresa. 

Ao longo de uma semana as cerca de 450 páginas foram-me acompanhando, dando-me a conhecer a história arrebatadora de Sarah, Daniel, Esther, Kimberly. Desejei apreciar o livro, senti-lo de uma forma diferente, não queria abandoná-lo logo. É difícil dizer adeus a um livro que nos consegue envolver desta forma. 

Desenrolada entre os anos 20 e os 60 do século passado, entre a Polónia e os EUA, em campos de concentração, ou num colégio privado que estava a dar os primeiros passos para o fim da segregação racial, a história surpreende completamente, até com um toque policial pelo meio. O final brutal e sem estar à espera deixou-me boquiaberta. Muito bom. 

Quanto às descrições de tal forma cruas e demasiados vividas deixaram-me muitas vezes às lágrimas, lembrando-me que este horror foi há bem pouco tempo e esteve bem perto de nós. 

Ou melhor, que este horror ainda acontece bem perto de nós, apenas perpetrado por outras pessoas a outras pessoas. Só muda a figura... 

Uma leitura que recomendo sem quaisquer reservas.

Excertos:
"...O que vale uma hipérbole quando o verbo é de encher?" pag. 15

"Quando o dia de trabalho de Sabina chegou ao fim, Esther despediu-se de Sarah e prometeram voltar a ver-se, Nenhuma das duas poderia adivinhar quantas vezes o fariam, nem o que ali acabara de nascer," pag. 107

"Para quem ama, a única concessão que a verdade permite é mesmo essa, o tempo." pag. 232

"Como será que vê o mundo quem já presenciou uma coisa assim?" pag. 388

"E depois havia a fome... Como se descreve a fome em Auschwitz?
Por palavras? Haveria que as inventar, primeiro. 
Não, a fome naquele lugar não se media pelo verbo, antes pela aritmética das horas. As horas que passavam desde a última refeição e as horas que faltavam até à próxima." pag, 396

"Sair com vida de Auschwitz não é o fim de nada. Acho que só se sobrevive aos campos na hora em que se morre, O verdadeiro problema está nos dias em que têm de ser vividos, mas uma coisa é certa: sempre que um desses monstros é apanhados, tudo se torna um bocadinho menos sombrio." pag. 432



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